O Reconhecimento da Realização

O Reconhecimento da Realização

Outro caso interessante é o caso de Punyayasas (Funayasha Daioshô em japonês), que é o 11º patriarca na nossa recitação. Ele se achava de pé com as mãos unidas, frente ao venerável Parsva (Barishiba Daioshô em japonês):

–          De onde vens? – perguntou-lhe Parsva.

–          Minha mente não vai nem vem.

–          Onde moras então? – perguntou o venerável.

–          Minha mente não se move, nem tampouco permanece quieta.

–          Estás seguro disso? – Insistiu o patriarca.

–          Em isso coincidem todos os Budas, contestou Punyayasas.

–       Mas tu não és todos os Budas, e por outra parte a expressão “todos os Budas” é um erro.   Asseverou Parsva.

Ao escutar isso, Punyayasas empreendeu uma prática ininterrupta durante 21 dias: ele retirou-se e foi sentar-se por 21 dias até chegar a alcançar a compreensão do estado não originado de todas as coisas. Estado não originado de todas as coisas o é porque todas as coisas dependem umas das outras: isso existe porque aquilo existe; todas as coisas estão conectadas como num círculo sem fim. Não existe uma coisa que você diga: “ah, esse é o início de todas as coisas”. E então ele dirigiu-se ao venerável e disse-lhe:

          

– “Todos os Budas” é uma expressão equivocada, mas eles não são o venerável.  Eles não são o  senhor.

Então Parsva reconheceu sua iluminação e transmitiu-lhe o verdadeiro Dharma. 

Eu estou contando essas histórias para que entendamos a transmissão. Houve um diálogo e uma luta, e o aluno sentiu que não estava preparado para enfrentar o patriarca, o mestre. Então ele volta, pratica mais 21 dias sem parar, e, seguro da sua capacidade de responder, visto o estado não originado de todas as coisas, ele vai até o mestre e aí lhe diz o que tem que ser dito, com certeza.

Existe uma grande diferença em dizer, “Eu penso que…”, e dizer com certeza absoluta uma coisa. Punyayasas vai até o mestre e diz que ele não é todos os Budas, e o mestre não só ouve as palavras, porque não adianta só repetir essas palavras. Ele vê o discípulo e o reconhece, reconhece sua realização.
N.E.: transcrição de palestra realizada por Monge Genshô Oshô em Florianópolis, novembro/2016.