Linhagens femininas

Linhagens femininas

Pergunta – Quando fazemos cerimônias, recitamos os nomes dos patriarcas. Por que não temos nenhuma matriarca, apesar de no budismo não haver a distinção dos gêneros?
 Monge Genshô – Não é verdade. No tempo de Buda tivemos Prajnapati, que era sua tia, e que foi uma grande mestra. Ela juntou-se à Buda com um grupo de amigas dando origem a uma grande linhagem feminina. Acontece que por volta do século XIII a Índia sofreu uma invasão islâmica que destruiu praticamente a base budista existente na época, as monjas foram mortas, este foi um dos eventos que marcou uma decadência do budismo indiano, em outras regiões linhagens femininas permaneceram, mas ao menos no budismo Theravada, no japonês e tibetano as linhas femininas se extinguiram com o tempo.
Também a universidade de Nalanda foi destruída. Muitos monges também foram assassinados, mas, como por uma questão cultural, sempre houve mais monges que monjas, elas foram extintas, acabando assim com a base contínua de transmissão de monjas. A partir de então as monjas passaram a ser ordenadas nas linhagens masculinas ao menos no zen. Não temos nenhuma monja cuja linhagem nos leve a Prajnapati no zen japonês. Por isso falei que não é verdade, já tivemos no passado uma linhagem feminina.
Linhagens Theravada do sul da Ásia, não consideram as monjas como plenamente ordenadas. Eles as consideram inferiores por não terem linhagens femininas e por não considerar que elas possam ser ordenadas em linhagens masculinas. Há controvérsias e tentativas de recriar isto no Theravada mas não com unanimidade.
Pergunta – Mas por que Bodhidharma não transmitiu para uma mulher?
Monge Genshô – Ele só passou a transmissão para uma única pessoa, que por acaso era homem, “Taiso Eka”. A sociedade dessa época era muito machista, de forma que era natural acontecer coisas do tipo, uma mulher era ordenada monja, mas seu pai ia até o mosteiro dizendo que seu filho homem havia morrido e ele necessitava que sua filha lhe desse um neto para continuar o nome da família. O abade do mosteiro mandava que a monja saísse do mosteiro, casasse e desse um neto para seu pai.  No Japão de hoje existem apenas dois monastérios exclusivamente femininos.
Pergunta – A linhagem não é uma exclusividade do Zen?
Monge Genshô – Não, varias escolas possuem linhagens, veja que Nagarjuna, que aparece na nossa linhagem, também aparece na linhagem de outras nove escolas, ou seja, mais nove escolas o reivindicam como patriarca do passado.
Pergunta – Como reagir com as pessoas que nos perguntam algo sobre o budismo? Eu pratico há pouco tempo, mas as pessoas notam algumas mudanças e fazem perguntas e pelo que o senhor fala devemos ter cuidado com quando e como falar do Dharma.
Monge Genshô – Essa é uma pergunta pessoal, no sentido que é você quem deve examinar a circunstância, mas a regra é: não fale do Dharma onde não há respeito. Não fale apenas para satisfazer a curiosidade de uma pessoa, espere que ela esteja realmente interessada, que pergunte mais de uma vez, pelo menos três vezes. Não fazemos proselitismo e não estamos interessados em convencer ninguém. As pessoas devem realmente querer, devem procuram com afinco.