Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 01 de novembro de 2025. A palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção foram realizadas com auxílio de I.A., por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.
Continuando.
Então, realidade absoluta e realidade fenomênica são dois aspectos da realidade universal, mas são só aspectos.
Eles coexistem. Você os escolhe. Agora, nesse momento, olhando para a tela, ouvindo a minha voz, nós estamos escolhendo um aspecto da realidade fenomênica.
Para a realidade absoluta, pouco importa. Nós, se despertamos, escapamos do fluxo da mudança e mergulhamos na realidade absoluta. Percebemos a realidade absoluta e aí os pequenos sofrimentos da realidade fenomênica se evaporam.
Isto é o despertar, é realmente enxergar a realidade absoluta e escapar da prisão da realidade fenomênica em que estamos presos todo o tempo. E por isso, despertar é uma libertação.
De acordo com o mestre Okumura, que fez a tradução que nós estamos estudando, aliás, uma pessoa muito brilhante, foi meu professor nos Estados Unidos, na Califórnia, quando fiz um ango de treinamento lá.
E ele ensinava sobre Dogen, mas precisaria de dez anos de ensinamentos para absorver o que ele tinha para ensinar. E tivemos apenas as aulas que eram possíveis dentro daquele tempo.
Diz Okumura Roshi, que neste ensinamento da universalidade, está a essência do título Genjokoan. Genjo não é outra coisa que Koan, e Koan não é outra coisa que Genjo. Genjo significa realidade de fato sucedendo no presente.
E Koan significa verdade absoluta que abarca a verdade relativa, sobre o que eu estava falando ainda há pouco, realidade absoluta e realidade fenomênica. Outra maneira de dizer verdade absoluta que abarca a verdade relativa.
Assim, podemos dizer que Genjokoan significa responder à pergunta da verdadeira realidade através da prática de nossa atividade cotidiana. A que corresponde à verdade relativa? Lendo diretamente do Genjokoan. Vamos ler, vocês tentam compreender, depois nós explicamos.
Quando todos os dharmas — dharmas aqui com letra minúscula são fenômenos —, quando todos os dharmas são o Dharma de Buda — aí Dharma com letra maiúscula significa ensinamento — há ilusão e realização, prática, vida e morte, budas e seres vivos.
Lendo de outra forma, quando os fenômenos são a sabedoria de Buda, há ilusão e realização, prática, vida e morte, budas e seres vivos.
Quando os dez mil dharmas, dez mil fenômenos no caso, carecem de identidade fixa, não há ilusão, nem realização, nem budas, nem seres vivos, nem nascimento, nem morte.
Devido a que o caminho de Buda, por natureza, vai além da dicotomia de abundância e carência, há surgimento e morte, ilusão e realização, seres vivos e budas.
Essas três primeiras frases do Genjokoan apresentam os ensinamentos budistas essenciais de três diferentes fontes.
A primeira frase resume o ensinamento fundamental de Buda Shakyamuni.
Os dharmas, os fenômenos, trazem a ilusão, realização, prática, vida e morte, budas e seres vivos. Esse é o mundo fenomênico, aquilo que eu antes chamei de realidade relativa, realidade fenomênica.
O segundo transmite um ensinamento fundamental do Sutra do Coração.
Quando os dez mil dharmas carecem de identidade fixa, não há ilusão, nem realização, nem budas, nem seres vivos, nem nascimento, nem morte.
Lembrem que o Sutra do Coração diz: não há isso, não há aquilo, ele vai listando as coisas e dizendo “não há”, porque ele quer dizer que quando não há “identidade fixa” em nada, quando todos percebemos que todas as coisas são vazias de um eu, inclusive nós mesmos, então não há ilusão, nem realização, nem budas, nem seres vivos, não há nada disto, não há distinção.
Porque a realidade absoluta não distingue ou fragmenta a universalidade em pequenos pedaços.
E aí não existe nem morte, nem nascimento, nada disso.
E quando alguém compreende isso, diz o Sutra do Coração, quando o Bodhisattva vê o vazio de todos os agregados, ou seja, a falta de uma identidade fixa em todas as coisas, ele abandona todo sofrimento, toda angústia e sofrimento se dissolve.
Por isso os budas não sentem sofrimento, porque aquilo que parece sobes e desces da vida, abandonos e afetos, fins e começos, transitoriedade, tudo isso deixa de ter significado.
Por isso, vendo o vazio de tudo isso, se dissolve toda a angústia e sofrimento.
A terceira parte contém o ensinamento de Dogen Zenji: devido a que o caminho de Buda por natureza vai além da dicotomia de abundância e carência, há surgimento e morte, ilusão e realização, seres vivos e budas.
Todos os dharmas, todos os fenômenos faz referência à totalidade do mundo fenomênico, à realidade manifestada.
É a visão da existência desde o ponto de vista subjetivo, ou relativo; percebemos o mundo através dos nossos sentidos, vivemos um mundo tangível, damos existência ao mundo desde essa nossa noção de separação, eu aqui e as coisas acolá, o contato dos nossos órgãos sensoriais com os objetos, classificamos a realidade em boa, má, eu gosto, não gosto.
Como, tomando café aqui, eu estou sentindo e percebendo o mundo fenomênico tal como ele é.
Mas segundo Buda, a origem do sofrimento está no aferramento a uma maneira distorcida de ver a realidade, pensando que os fenômenos existem como entidades substanciais, fixas, e o que percebemos é a realidade imutável.
Continua.





