O Primeiro Agregado (Parte 6 - Final)

O Primeiro Agregado (Parte 6 - Final)

“A escola Zen diz então: a terra funde-se e o céu desmorona, e mais, se Buda falou do paraíso como de uma terra dourada é porque empregou palavras diferentes para pregar aos ignorantes.”. Nesse mesmo Sutra cita-se que Buda também falou em outras vidas, ele disse: “eu ensino assim para os ignorantes, porque na verdade não existe uma coisa que se pudesse dizer ‘outras vidas’ de um eu”. Porque um eu não sobrevive um segundo, a cada momento somos novos eus, e só a memória que os une dá a sensação de uma consciência. É a memória que une esses fotogramas instantâneos de momentos. Exatamente como em um filme, em que você vê 24 quadros por segundo, mas porque passam depressa, você tem ilusão de movimento, tem a impressão de que uma história está sendo contada. Mas a cada momento é um fotograma só, é só uma foto. E você só entende o filme porque tem memória do que aconteceu antes e une uma foto com outra, e, por isso, tem a ilusão de movimento. O cinema é uma analogia muito boa para compreendermos nossa vida.

Nossa vida aqui é uma sucessão de movimentos de consciência, e nossa noção de um eu é provocada pelo fato de nós termos uma memória que une esses momentos. Por isso, pensamos eu sou. Se você tirasse o elemento memória acabaria a noção de eu sou. Por isso, não há nenhum eu que possa sobreviver. Tudo que você conta é com seus impulsos, suas marcas, os impulsos e marcas que você tem nessa vida e que você cultiva, aumentando e aprofundando, esses você leva, esses são os impulsos, o movimento, a energia cinética dessa onda. É isso que nos leva para frente. Não é um eu, pois a cada momento nós construímos um novo eu e chamamos a isso, com a nossa memória, de consciência.

“Se obtiver essa iluminação, vejo que meu corpo – sem deixar de ser meu corpo – existe originalmente como substância do corpo de essência, que não teve nascimento. Posto que não nasceu, não conhece a morte. É o que se chama não nascimento e não destruição, ou o Buda da vida infinita, o não nascido. Crer no nascimento e na morte é o sonho do extravio. Se é assim para o meu corpo, também é para os outros corpos. Se assim é para o homem, também é para tudo: os pássaros, os animais, as plantas, a terra, as pedras. O Amitabha Sutra declara: o Buda das dez direções do espaço aparece nos universos infinitos e prega a lei com a larga e comprida língua dos Budas. Estes fatos acontecem no momento em que realizamos a iluminação.”

“Lemos no Saddharma Pundarika Sutra [que é o Sutra do Lótus citado na nossa recitação das refeições]: todos os dharmas [eventos] têm naturalmente o caráter do vazio, sem descontinuidade desde a origem, tudo isso indica que a iluminação foi realizada. Realizai esta iluminação pela meditação sentada, fervorosa, em harmonia com a substância do verdadeiro corpo de essência, em harmonia com a mente infinita, liberando-se do extravio do agregado da matéria”.

Somos nós que estamos extraviados, porque somos agregados de matéria, animados por carma, por um movimento cármico. Por isso eu chamo as vidas de novas manifestações cármicas em vez de renascimentos, para que não haja confusão.

[Palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]