Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 01 de novembro de 2025. A palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção foram realizadas com auxílio de I.A., por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.
Continuando…
Talidade significa as coisas tais como são, como realmente são. Eu vou explicar que, na verdade, as coisas não nos parecem como realmente são. Elas nos aparecem distorcidas pelos nossos óculos, pelos nossos preconceitos, por nossas ilusões, por nossa mente discriminativa, por todos os problemas da nossa própria mente.
Nossa mente distorce a realidade. Nós não vemos a realidade tal como ela é, nem em sua complexidade, porque afinal, vemos da realidade apenas uma pequena fração, só a fração que pode ser percebida pelos nossos sentidos, e todo o resto nos escapa. Um exemplo que eu tenho constantemente dado é que estamos todos aqui agora assistindo essa palestra.
Mas aqui, pelos nossos celulares e computadores, estão passando bilhões de outras imagens, de vozes, de outras palestras de todos os tipos. As coisas mais baixas e as coisas mais elevadas estão, ao mesmo tempo, aqui passando por nós. Tanto que poderíamos sintonizá-las, poderíamos acessá-las em um instante, com alguns cliques no nosso mouse.
Poderíamos acessar outras coisas, mas estamos escolhendo esta especificamente. Esta é uma fração infinitesimal de toda a realidade disponível. Então, aquilo que nós pensamos ser a realidade é uma coisa muito grande, e nós estamos escolhendo algo nela.
Esse ensinamento tem muita coisa dentro de si, porque nós escolhemos na nossa vida o que quisermos, e isso será a nossa vida. Nós podemos escolher a raiva, o ódio, o desconforto, a desesperança, a desilusão.
Podemos escolher muitas coisas. Podemos escolher a alegria, podemos escolher a beleza, podemos escolher mil coisas maravilhosas ou negativas, à nossa vontade. Então a realidade tal como é, para nós, é uma realidade de escolha.
Nós estamos escolhendo ouvir esta palestra aqui agora, o que faz de vocês, em todo esse imenso universo, uma fração de pessoas que está interessada em um assunto como o Budadharma. A palavra Koan tem dois significados. O primeiro tem a ver com as histórias do Zen da antiga China, que relatam encontros ou diálogos entre mestre e discípulo, e que são apresentados como problemas para a solução dos alunos.
Principalmente na tradição Rinzai, esses Koans, ou histórias, têm sido escolhidos para serem resolvidos pelos praticantes. Algumas pessoas dizem que a escola Soto não usa Koans, isso é completamente errado. A escola Soto usa Koans sim, mas os usa como auxiliares da prática, não como centro da prática.
O centro da nossa prática é o Zazen em si, e não a solução desses problemas. Então, o método da Soto é bem diferente da Rinzai por causa disso. Embora a teoria doutrinária entre as duas escolas seja praticamente idêntica, o método de prática é diverso.
Um problema que acontece com o sistema da escola Rinzai é que ela exige um mestre muito brilhante, porque fica relativamente fácil para os alunos burlarem e apresentarem respostas que parecem corretas ou foram obtidas de outra forma. E isso enfraqueceu a escola Rinzai.
E também fez com que a escola Rinzai fosse uma escola principalmente monástica, restrita a poucos monastérios, onde bons mestres conseguem cuidar de alguns alunos, que precisam, principalmente nos treinamentos, de várias entrevistas por dia para tratar do Koan. Um padrão, por exemplo, nos sesshins, são cinco entrevistas com o mestre por dia.
Isto é bem diferente do método da Soto Zen, onde, por exemplo, eu estou disponível para encontros com os meus alunos, para falar sobre suas vidas, sobre o seu projeto espiritual, sobre o que tem acontecido, como são suas experiências.
Não apenas nos retiros, mas eu estou disponível diariamente. Muitos alunos têm medo, não sabem o que dizer, ou quando se apresentam para as entrevistas, dizem “eu estou nervoso”. Eu explico: eu sou um homem comum. Depois de cinco minutos, eles relaxam, compreendem que eu sou igual a eles, e que a única coisa que eu posso acrescentar é que, depois de cinquenta anos de prática, tenho algumas experiências para ajudar as experiências deles.
Posso comentá-las. Os seus problemas não são muito diferentes dos meus problemas. Então, esse fato de podermos conversar é um grande benefício.
Mas na Escola Soto isso é visto como gradual. Nós podemos conversar ou não. O aluno pode me procurar ou não.
Pode demorar muito tempo para apresentar algo ou não. Isso não importa. O que importa é que o mestre está disponível quando você quiser. Basta agendar uma conversa.
Mas na Escola Rinzai esta pressão é uma pressão realizada pelo mestre sobre o discípulo.
E é altamente exigente. Na Escola Soto é muito suave. Se quisermos apenas conversar sobre os problemas da vida diária, podemos conversar.
Não há problema algum. Existe essa abertura como se o mestre fosse um amigo, com o qual podemos trocar nossas experiências e receber algumas sugestões.
Supõe-se, na Escola Rinzai, que a resposta ao Koan evidencia o grau de despertar do estudante, e ele deve completar um currículo de Koans.
Mas na tradição Soto, estudamos essas histórias como uma ferramenta para ver a própria natureza, para nos sintonizarmos com a mente dos mestres que protagonizaram essas histórias. A palavra Koan também significa caso público. Faz referência ao fato de que essas histórias tornaram-se públicas para ser estudadas.
Um fala na realidade absoluta, e o outro fala na realidade fenomênica, que são dois aspectos da realidade universal. Isso merece um comentário.
A realidade absoluta de todas as coisas reúne o fato de todas as coisas do universo estarem juntas, serem interdependentes, interconectadas, serem uma coisa só no fim. Quando dizemos isso, esse pensamento, se bem compreendido anula a percepção de nascimento e morte, por exemplo. Na realidade absoluta você não nasce nem morre.
Não é isso, você pertence sempre à realidade absoluta. Uma boa analogia para isso é a questão da água. A água se manifesta sobre muitas formas.
Ela pode ser uma gota de chuva caindo, pode cair sobre um terreno aquecido e evaporar, se transformar em vapor. Ela pode juntar-se e correr para um riacho, formar um rio, um lago, voltar ao mar. Tanto faz.
Você diria que aquela gota de água morreu? Quando uma gota de água cai de uma nuvem e cai no chão e se evapora, ela morreu? Quando ela se junta a um rio, ela morreu? Quando ela está no mar, ela morreu? Não. A água simplesmente continua. Essa é uma boa analogia para a realidade absoluta.
Na realidade absoluta não nascemos nem morremos, só nos transformamos continuamente. Estamos em mudança. O nosso eu de ontem não é o eu de hoje.
Nosso corpo de ontem não é o corpo de hoje. Tudo está mudando sem parar. A única realidade que nós podemos apontar aí é a realidade do fluxo, da mudança contínua.
Do outro lado, a realidade fenomênica do mundo é o mundo relativo, no qual nós vivemos todo o tempo. Nós estamos aqui olhando até ela, pensamos: depois eu vou sair daqui, eu vou tomar café, ou no meu caso, depois eu vou fazer entrevistas. Então, parece que o tempo está se sucedendo e há uma nova realidade, um outro fenômeno continuamente acontecendo.
Há pessoas nascendo e morrendo. Nós estamos indo em direção à nossa morte. Eu estou falando para uma plateia de condenados à morte.
Embora nós queiramos esquecer esse fato, é a realidade inelutável. Vai acontecer com todos nós. Nós fingimos que não estamos prestando atenção, mas essa é a realidade fenomênica.
A realidade fenomênica é a sucessão de pequenos eventos que, no conjunto, não são essencialmente nada que mude a realidade absoluta. A chuva não muda a realidade absoluta, a quantidade de água no planeta não muda quando chove, quando a água se evapora, quando ela corre para o rio, quando ela corre para o mar, quando ela faz uma enchente, quando ela participa de um furacão. Tanto faz.
Toda a água continua lá. Nós também. Nós continuamos aqui e, mais interessante ainda, não temos a possibilidade de sair desse fluxo.
Estamos nos transformando todo o tempo, mas um fim não está à vista. Não existe um fim possível para essa circunstância, porque só existe transformação. Quando alguém sofre grande pressão psicológica e pensa: eu vou escapar, eu vou me suicidar, eu vou morrer e vou escapar desse meu sofrimento psicológico, ele não escapa, porque ele simplesmente continua no mesmo universo e arrastando o mesmo karma, o mesmo tipo de pensamento, o mesmo tipo de sentimento, tudo continua junto com ele todo o tempo.
Nós não escapamos, não existe uma escapatória fácil da realidade fenomênica. E quando mergulhamos na realidade absoluta, nada disso tem muito significado, porque, para a realidade absoluta, os fenômenos são praticamente nada. Para o mar pouco importa se choveu, se evaporou a água, pouco importa. O mar continua ali. Assim são nossas vidas. ( Continua.)





