#2 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô

#2 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô

Palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 18 de outubro de 2025. A Palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção realizada com auxílio da I.A, por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.

O nosso despertar é idêntico ao despertar de Buda.

Continuação – Comentários de Genshō Rōshi

(…) Para Dōgen, o nosso despertar é idêntico ao despertar de Buda. Não há diferença entre o céu refletido por um lago límpido e o céu refletido por outro lago igualmente límpido. Portanto, o nosso despertar é idêntico ao despertar de Buda. Basta que o imitemos.

Nós fazemos isso através da imitação da prática de Buda. Consideramos que, se Buda foi capaz de realizar isso com o seu corpo, e se eu tenho um corpo como o de Buda — um corpo humano, como ele — então  também sou capaz de despertar.

Quando se pratica o Buddha Mudrā, a postura com todo o corpo e mente, erguido em samādhi, mesmo que por um breve instante, absolutamente tudo no mundo se transforma. Todo o espaço e o universo inteiro se iluminam. Não apenas os seres sencientes, mas a própria realidade em si desperta, porque não há obstrução pelo ego através da mente conceitual.

Quando se diz que não apenas o ser em si mesmo se realiza, mas também todos os seres — os seres humanos, as outras criaturas, inclusive a terra, o solo, as ervas, as árvores, as cercas, os muros — tudo está desperto, isso acontece porque a realidade última só existe no processo da observação.

A realidade absoluta só se manifesta através do olhar. É você que, através da sua consciência, produz essa realidade. Isso parece difícil de entender, mas é como se estivéssemos dizendo que existe um mundo que é interdependente, emergente, e que surge em relação com o olhar que o vê.

Um exemplo simples: eu estou à frente de uma mesa de madeira. Essa mesa, para o olhar de um cupim, é alimento; não se trata de uma mesa. Só existe uma mesa para mim, ser humano, que olho para a madeira organizada dessa forma, com pernas. Para o olhar de um pássaro buscando pouso, trata-se de uma superfície plana. Para cada olhar, surge uma realidade diferente.

Não é que exista uma construção puramente conceitual arbitrária, mas sim que o mundo se manifesta conforme a relação entre o olhar e aquilo que é visto. Dessa maneira, podemos dizer que todo o universo que vemos é criado por nós. Observamos um determinado aspecto e ele passa a ter aquele aspecto por causa do nosso olhar.

Pessoas que sofrem de depressão, por exemplo, veem o mundo através de óculos escurecidos. O mundo lhes parece sombrio. Mas esse mesmo mundo, que parece sombrio para quem está deprimido, pode ser brilhante, feliz, cheio de música e perfume para outro olhar.

Dessa forma, podemos nos conscientizar de que a mudança do nosso olhar que é a transformação do mundo. 

Nós mudamos o mundo com o nosso olhar.

Então, qual é a essência? A nossa verdadeira essência, a nossa verdadeira capacidade, A nossa capacidade é transformar o olhar. Retirar os nossos olhos, iludidos e colocar os olhos de Buda. Aos olhos de Buda, todo o mundo é brilhante e iluminado. Se nós não vemos assim, é porque o nosso olhar está errado.

Portanto, o que temos que fazer é consertar o nosso olhar. A prática é um treinamento para mudarmos o olhar. E ela começa sempre pela disposição de descartar tudo: esquecer tudo. O passado, esqueça. Perdoe. Passado não existe — ele é apenas memória. O futuro não existe — ele é imaginação, expectativa.

Só existe este momento. E este momento é um momento brilhante.

É como a experiência de um homem que foi cego a vida inteira e, de repente, após uma operação, passa a enxergar. Ele olha o mundo, e o mundo é maravilhoso. E aquele momento, é o momento mais feliz de sua vida, um momento de felicidade incrível. E as outras pessoas, que nunca foram cegas, não veem.  Então, aos olhos maravilhados de quem vê o mundo pela primeira vez, o mundo é brilhante, o universo é maravilhoso.   

E por que ele não é maravilhoso? Exatamente porque o nosso olhar não é o olhar do cego que começou a enxergar hoje. É um olhar para quem aquilo sempre foi normal, simplesmente abre os olhos, está vendo o mundo e pode ver o mundo como triste e sem beleza.(…) Continua.

Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Roshi, Daissen Virtual – Colaboradores, 18/10/2024.

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