Trecho da Palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 18 de outubro de 2025. A Palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção realizada com auxílio da I.A, por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.
Continuando…
No Bendōwa, Dōgen faz ênfase no ensinamento budista de Anātman.
Em japonês diz-se Muga, mas temos usado, e eu tenho ensinado sempre, usando os termos em sânscrito mais originais, Anātman.
Ātman significa essência, algo que é eterno e imutável dentro do ser. Muitas vezes é traduzido como alma ou espírito nas línguas ocidentais.
O ensinamento de Buda é que isso é um engano, que não existe um Ātman. O ensinamento é Anātman, não há Ātman. Então, ele negou a realidade substancial permanente de algo que ocupe um corpo.
E ensinou que isso derivava de uma visão errônea das fontes indianas pré-budistas e bramânicas. E muitas vezes há uma tentativa de colocar no budismo a noção de uma alma ou de um espírito. Há inclusive um sutra em que Buda ensina e contesta um filósofo chamado Senika. Este alega a teoria de um eu eterno que existe além do corpo. Essa é a teoria que, na realidade, ganhou o mundo ocidental através de Platão e a tese que foi adotada pelo cristianismo. Buda explica a Senika, no sutra, que este é um engano, que, na realidade, tudo é mudança e que a nossa própria noção de um eu não passa de uma percepção, uma construção mental que está em mudança permanente.
Estamos mudando, e o eu de hoje não é o eu de amanhã, nem é o eu de ontem. Estamos em mudança, o que é maravilhoso, porque, se somos mudança, podemos ser qualquer coisa e não estamos condicionados ou presos a nenhuma condição. O ensinamento de Buda é cheio de liberdade.
O ensinamento de que temos uma determinada alma ou personalidade imutável que é eterna nos prende a uma condição determinada. O ensinamento de Buda, ao contrário, abre as portas para todas as mudanças possíveis e imagináveis. E então esse eu kármico, que atua baseando-se em uma mente que discrimina, vive uma forma de vida não universal, porque ele é apenas condicionamento.
Mais uma vez, nos referimos ao Zazen como uma maneira de acabar com essa mente presa e discriminada para que a liberdade possa se manifestar. Esta realidade última para a qual despertamos no Zazen, nela não há separação entre vida e morte, entre budas e seres ignorantes, entre ilusão e iluminação.
O grande mestre Menzan, em um comentário sobre o Jijū e o Zanmai do mestre Dōgen, diz que entende que teus olhos não podem ver-se a si mesmos.
Despertar a mente para eliminar os pensamentos ilusórios é como verter azeite no fogo para extingui-lo. O fogo arderá ainda com maior força. Na verdade, sentamos em Zazen não com a pretensão de eliminar todos os pensamentos, mas sim de ignorá-los, de voltar à nossa natureza que não discrimina, não faz diferença e ver as coisas com os olhos de alguém que começou a enxergar nesse instante, que deixou de ser cego.
Então, Menzan explica que buscar o sujeito que vê e ouve também é inútil. Você não tem que procurar quem sou eu que estou vendo e ouvindo. Por mais que busques esse sujeito, mais te fatigas em uma luta inútil, já que o que busca e o que é buscado não podem ser separados.
Por isso, os olhos não podem ver a si mesmos. Tentar pensar que existe um eu observador e algo observado é uma separação que nega a realidade última na qual tudo está contido. Então, a maior dificuldade quando praticamos são as próprias expectativas que têm os praticantes.
É natural que, quando alguém busca o caminho, surjam necessidades de encontrar respostas para a insatisfação e as inquietudes existenciais. Mas isso nunca vai levar à realidade do caminho. Algumas pessoas entram no caminho do Dharma e tornam-se automaticamente perturbadas quando levam para o caminho do Dharma, que seria o caminho da libertação e da limpeza mental, suas ambições pessoais.
Então, a ambição de ser dono de uma sangha, ou de ser mestre, ou de ser eminente, ou de usar vestes especiais, tudo isso é negativo.
Na realidade, nós devemos entrar no caminho e praticá-lo sem ambição alguma. A própria instituição nos perturba. Criamos uma instituição como o Daissen, mas a instituição em si é algo atemporal, fora de nós, e não depende de personalidades, e não deve depender de pessoas ou endeusar quem quer que seja.
Uma manifestação disso, por exemplo, é quando nós fazemos nossa cerimônia. Nós dizemos: “fundador honorário deste Zendō”, fundador honorário da Daissen, é Saikawa Rōshi.
Ele não está aqui, meu mestre. Por quê?
Porque, se eu me considerar fundador, isso será altamente perturbador para mim mesmo e será altamente perturbador para a sangha também. A sangha tem que existir e subsistir, não importa se eu estou vivo ou morto.
Se morro, continua a comunidade. E assim o budismo sobreviveu 2.500 anos.
Nos referimos aos ancestrais, ao Buda, a todos os que trabalharam com reverência, mas nenhum deles é a sangha. Todos eles são apenas instrumentos do funcionamento da sangha, e a sua morte não faz bulha na superfície do lago. É simplesmente mais um evento natural na linhagem dos ancestrais. Por isso, os ancestrais podem ser centenas.
Nós repetimos seus nomes para homenageá-los, mas, na verdade, quem lembra detalhes sobre eles? Ao longo do tempo, só alguns detalhes serão lembrados. Porque a comunidade não é fundada em cima de pessoas, e pessoas não devem ser donas de nenhuma parcela da comunidade.
A comunidade sobrevive do Dharma de Buda,
e não de pessoas, autoridades, cargos ou coisas assim. Todas essas coisas existem apenas como instrumentos. São passageiras, transitórias e desimportantes.
Nós mesmos somos desimportantes. E quem se pensar importante se perdeu no caminho. (…) Continua.





