Zazen e o ambiente - Parte 3 | Monge Kōmyō

Zazen e o ambiente - Parte 3 | Monge Kōmyō

[CONTINUAÇÃO]

Vocês podem ter os seus critérios. Eu mesmo não gosto de barulho de carro. Mas o fato de eu não gostar do barulho do carro não significa que eu preciso rejeitar esse barulho como se ele não fosse parte do momento. E aí finalmente chegamos ao ponto da observação. Nós observamos o momento presente. Nós observamos, compreendemos e experimentamos tudo o que está acontecendo aqui e agora. Como eu procuro sempre ensinar: o momento presente não é estático. Ele não é uma coisa que a gente tem e fica – o momento presente é um fluxo. Ele está passando agora. E aí vem o grande axioma do Zen, talvez um dos maiores – o segundo maior na minha opinião -, que é: “Onde está a sua mente? A sua mente está no fluxo do presente, ou sua mente está distraída no passado ou ansiosa projetando para o futuro? Para quando vocês saírem daqui, o que vocês vão fazer? Onde está a sua mente?” A mente está apenas no fluxo do aqui e agora. Não existe outra mente. Nossa consciência, nossa compreensão, nossa percepção, só se manifestam agora. A vida só existe agora. Não há outra vida. “Ah, mas e o passado?” O passado já se foi, guarde as boas lembranças, guarde os aprendizados até difíceis, mas não imagine que a vida é o passado. E não imagine que a vida ainda vai ser. A vida é agora.
O Buddha ensinava que atingir a felicidade, atingir a paz, atingir a harmonia não é um objetivo distante. Está sempre em nós. O que aquele procurava dizer é: nós estamos como em um sonho, estamos dormindo. E a prática Zen é para *palma* despertar. Acorda! *Estala os dedos* sai do sonho! Viva o agora! Tudo o que você gostaria de bom e de bem está se manifestando agora. “Ah, mas as pessoas… ah mas o meu emprego… ah mas a minha relação… ah mas a minha família” Não, não. Não é aqui e agora. Está aqui. Eu sei, as pessoas as vezes passam por momentos difíceis. Eu mesmo já vivi. Mas o grande ensinamento do Buddha, e a grande prática que nós fazemos aqui é aprender que apesar dos momentos dificeis, o abrigo, aquilo que pode nos dar aquela força e equilíbrio necessários, e aquela paz interior que tantas pessoas falam, só podem ser acessadaf quando nós tivermos plena consciência de viver a vida em seu momento mais real. Agora.
E quando nós aprendemos a observar e chegamos à essa experiência, nós descobrimos que esse momento é maravilhoso. Barulho de carro, buzina, gente falando, os nossos problemas difíceis, as nossas tristezas, as nossas perdas, apesar disso, a vida é maravilhosa. E é um tesouro para ser vivido. E mesmo os momentos difíceis, ainda que eles sejam difíceis, ainda que nós choremos, e fiquemos tristes, nós não precisamos perder a compreensão de que, apesar desse momento dificil, a vida continua sendo maravilhosa.
Falar é fácil, falar é bonito, mas o Zen é prática. E tudo isso que eu lhes disse precisa ser vivenciado. Precisa ser experimentado. Não adianta eu dizer. Eu já falei isso outras vezes aqui, tudo o que eu disse aqui vai ser passado. Já é passado. Provavelmente vai ser esquecido por alguns de vocês, não importa. Como diz o mestre Thich Nhat Hanh, a semente da consciência fica abrigada em nosso coração, em nossa mente. Se vocês tiverem essa paciência, essa determinação, essa confiança e interesse na prática, um dia essas sementes germinam.
E, por favor, quando eu digo confiança na prática, não significa que vocês tem que ter confiança nessa prática, é na prática de auto-observação, na prática de autoregulação, de autoconsciência. Essa é a prática. Vocês não precisam voltar para aqui hoje, continuar praticando conosco, para continuar praticando dessa forma. O Zen não é um caminho para todos. Mas se vocês continuarem mantendo uma prática de auto-observação, de cuidado com o que é externo e com o que é interno, em tempo, eu não sei qual tempo vai ser esse para cada um de vocês, as descobertas vão ocorrer. Se vocês quiserem vir praticar conosco serão muito bem vindos, mas vocês são livres: a nossa prática não é uma prática de doutrinação, nem proselitismo. Vocês não estão praticando aqui para serem convencidos a se tornarem zen-budistas. Vocês praticam aqui se vocês quiserem, se vocês veem aqui na prática algum valor. Se vocês preferirem outros caminhos, sejam felizes. Porque assim é a vida, a vida é transformação, tudo passa. Nada fica. Inclusive o momento presente.


Teishō proferido por Kōmyō Sensei no dia 28 de janeiro de 2023 na sangha do Rio de Janeiro.