Sobre o sobrenatural | Monge Genshô

Sobre o sobrenatural | Monge Genshô

(…) Nós somos fascinados por ilusões e fantasias de todo tipo. Kodo Sawaki, que foi um grande mestre Zen, disse que se há seres que se manifestam neste mundo estão tão perdidos quanto nós, então eles não interessam. É fácil raciocinar a este respeito, não é? Pense bem, qualquer ser que por acaso tenha se manifestado através de um canalizador ou intérprete, até agora, na história da humanidade, algum deles resolveu uma equação matemática que estava há 300 anos encalhada sem ninguém resolver? Alguém chegou e trouxe a cura de uma doença? Alguém passou uma fórmula que pudéssemos escrever e começar a produzir medicamentos? Isso nunca aconteceu. Todos esses intérpretes só dizem coisas que parecem bonitas, mas que na realidade a gente já sabe.

Nós vemos a toda hora séries televisivas e filmes sobre viagens para o futuro ou para o passado, mas se isso fosse possível haveria pessoas do futuro nos visitando aqui e agora. É isso que temos acontecendo agora? Não. É tão simples, por que não paramos para pensar um pouco?

Buddha dava respostas desse tipo e as pessoas não gostavam muito, mas tradicionalmente o budismo faz isso: você vem com bastante ilusão e os mestres dão respostas arrasadoras. Alguém pode dizer “como me livro do samsara, dessas prisões, desses apegos que tenho? Como me liberto?” e o mestre pergunta “quem lhe prendeu?”. É muito simples, se você olhar para a parede vai saber quem lhe prendeu e por isso sentar em zazen é tão bom.

Abandone todas as suas ilusões, todas as suas fantasias, nós não estamos interessados no sobrenatural. Para o Zen beber água é sobrenatural, é fantástico. Você talvez não esteja vendo, mas abrir os olhos e enxergar é sobrenatural, por que você quer algo mais? Você não dá conta do sobrenatural da própria vida.

O que nós queremos enxergar é que a vida é tão sobrenatural que não é sobrenatural. Como Bodhidharma respondeu: não há nada que possa ser chamado de sagrado, porque se todas as coisas são sagradas então nada é sagrado.

Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Sensei, Goiânia, 20/02/2020.