Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 08 de novembro de 2025. A palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção foram realizadas com auxílio de I.A., por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.
Continuando(…)
Hoje nós vamos prosseguir com a palestra sobre o primeiro capítulo do Shōbōgenzō Bendōwa, de Eihei Dōgen, o qual foi comentado no livro Introdução ao Zen de Dogen, por Mestre Denshō Quintero. Quando eu estava terminando a palestra no sábado passado, eu citei uma frase do Avatamsaka Sutra, Sutra da Guirlanda das Flores, que o Mestre Denshō Quintero cita aqui:
“Por isto, as flores murcham ainda que as amemos; as más ervas crescem ainda que nos desagradem. Dirigir-se até todas as coisas para levar a cabo a prática da iluminação é ilusão.
Todas as coisas vindo e levando a cabo a prática da iluminação, através de cada um, é a realização. Aqueles que compreendem profundamente a ilusão são budas. Aqueles que estão extensamente enganados na compreensão são seres vivos.
Além disso, há quem alcança a realização além da realização, e aqueles que estão enganados dentro da ilusão.”
O importante para nós percebermos sobre a primeira frase — as flores murcham mesmo que as amemos, e as más ervas crescem ainda que nos desagradem — é que as flores são amadas por nós por uma discriminação da nossa mente. E somos nós que criamos as más ervas, com outra discriminação da nossa mente.
Eu me lembro de um ditado que esclarece isso: nada melhor para acabar com a praga do que achar uma utilidade para ela. Isso mostra exatamente como funciona a nossa relação com o mundo. Nós pensávamos: “Essa erva aqui é uma má erva”, e, de repente, descobrimos que aquela coisa que nós víamos como praga produz uma substância que é um remédio e que cura doenças.
E, de um dia para o outro, aquela má erva passa a ser cultivada como uma coisa preciosa. Então, quando é que ela foi uma má erva? Só quando nós acreditamos que era, quando nós a vimos como tal. É nossa mente que a fez uma má erva, e também é a nossa mente que faz com que as flores sejam amadas.
Elas são amadas por uma discriminação da nossa mente. E assim são todas as coisas; assim também são as pessoas. Nós as amamos na medida em que nós as olhamos como seres a serem amados.
E nós as detestamos e odiamos pela nossa própria mente, ao ver um defeito qualquer que profundamente nos desagrada. Como nós não conseguimos mudar isso, então nós congelamos a nossa visão e colocamos uma etiqueta sobre as pessoas e sobre as coisas, sobre tudo: isso é bom, isso é ruim, isso é bom, isso é ruim.
Eu gosto disso, não gosto daquilo. Não passa de uma manifestação da nossa mente. Mas, por isso, dizemos que é a nossa mente que cria o mundo que nós enxergamos.
Então, flores e más ervas não são mais do que exemplos dos inumeráveis fenômenos. As flores simplesmente crescem, florescem e morrem. As más ervas também crescem, florescem exuberantemente e murcham.
Nem as flores, nem as más ervas, são inerentemente boas ou más. Simplesmente crescem e vivem. Nós, como seres humanos, geralmente tomamos partido em nossa relação com as coisas, devido ao fato de que desfrutamos as flores; nós as amamos quando florescem.
E, posto que nos desagradam as más ervas, somos infelizes quando aparecem. Isso quer dizer que nós olhamos as coisas a partir das sementes cármicas que estão dentro de nós, de nossas experiências passadas, com as quais nós julgamos as coisas, perseguindo o que produz gratificação e rejeitando o que nos produz desagrado.
De acordo com as sensações agradáveis ou desagradáveis que produz o contato dos nossos órgãos sensoriais com os fenômenos, classificamos o mundo em bom ou mau.
Nós tivemos uma experiência bastante interessante ontem mesmo. Joken Sensei, nosso brilhante diretor do nosso sistema de ensino, CED da Daissen, escreveu um parágrafo com uma observação a respeito do que acontece com a política e o Dharma. Eu disse:
— Excelente observação. Valia um artigo do senhor, Joken Sensei.
E ele escreveu um artigo que eu reputo brilhante, examinando a própria história do Zen, as atitudes de Shakyamuni Buda e as suas atitudes em relação à política.
Nós temos o mesmo problema hoje, porque, de acordo com nossas preferências políticas, nós queremos que o Dharma confirme as nossas visões. No entanto — e é uma coisa que tenho ensinado desde o começo —, não faz parte da tarefa do Dharma assumir posições políticas, e não faz parte da minha visão do que um professor deve fazer colocar-se deste lado ou daquele.
Quando fazemos isso, nós dividimos a comunidade e criamos, ora desagrado para uns, ora conforto para outros, de acordo com aquilo que eles pensam. Se o que o mestre falou, por acaso, chancela um pensamento seu, ele fica feliz. Se não chancela, ele acha que o mestre está errado. Continua.





