#4 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô

#4 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô

Trecho da Palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 18 de outubro de 2025. A Palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção realizada com auxílio da I.A, por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.

Continuando…

Mestre Densho Quintero escreve: – “O mestre Dogen diz no Genjokoan: quando alguém busca o Dharma, se afasta das fronteiras do Dharma.

Quando o Dharma não é transmitido corretamente, então, de imediato, cada um passa a ser a pessoa original, que sempre foi. Passa um tempo desde que o principiante recebe as instruções sobre o Zazen até que, na realidade, comece a praticar. Por isso, é necessário compreender profundamente em que consiste a prática, para não adaptá-la aos nossos próprios caprichos.

Há que confiar no caminho, sem restrições, e abandonar-se. Deixar-se arrastar pelo caminho, pela prática, pela sangha, sem tentar colocar nossas próprias ambições ou qualquer coisa dentro da prática espiritual. Isso seria perder-se.

Dogen Zenji ressalta o fato de que, quando estamos sentados em Zazen, nosso despertar para a realidade imediata e o despertar de Buda se tornam imediatamente a mesma coisa. É importante compreender que a iluminação não é um estado estático, uma condição beatífica que quando se atinge, não se volta a sair. A ideia de que, por praticar, nos convertemos em seres especiais é só outra ilusão enganosa.

Algo que se vê com muita frequência nas espiritualidades da Nova Era, diz o mestre Deng Chuo. E Uchiyama Roshi, que sucedeu ao grande mestre Kodo Sawaki, diz: uma iluminação seca, congelada ou preservada é inútil. A iluminação que você obteve ontem já não está presente aqui hoje.”

Essa frase é muito importante para nós, porque a iluminação de hoje não serve nem para amanhã. A iluminação de amanhã tem que ser conquistada amanhã. É muito fácil nós obscurecermos nossa visão, é muito fácil deixarmos de enxergar, é muito fácil nos perdermos.

Por isso, tem que haver uma construção contínua para que nos conscientizemos do ensinamento de Buda e para que nos esqueçamos de nossas ambições pessoais. Devemos lembrar sempre disso: as ambições pessoais, o eu e o ego são os maiores inimigos do praticante. Não há maior problema para o praticante do que o orgulho ou a vaidade.

Esse é um problema que assalta a todos. E mesmo que nós tomemos um monge e tiremos dele todos os bens materiais, ele viva pobremente, ele se dedique ao Dharma todos os dias e tudo mais, ainda espreita todos os dias a ideia de: eu sou um bom praticante, eu sou um bom monge, eu sou um bom professor. Essa ideia é a vaidade querendo surgir, e a vaidade é o mais difícil problema de ser removido.

Os bens materiais são fáceis de serem abandonados, mas a vaidade pessoal é difícil. É por isso que, a cada dia, temos que reconstruir nosso despertar e trabalhar. Por isso, a prática nunca pode ser abandonada. Mesmo os mestres têm que se sentar em Zazen e limpar suas mentes, porque todos os dias o mundo conspira, com todas as notícias, com todas as palavras, com todas as coisas a que temos acesso, para nos perturbar.

O sofrimento vem também de pensar que podemos fugir da ignorância para alcançar um estado permanente de iluminação. A ilusão também se dá em meio à realidade última. Tudo é impermanente, tudo está mudando continuamente.

Por causa disso, temos que construir a nós mesmos a todo instante. Quando nos aferramos a pontos de vista rígidos, cria-se separação. Porque a realidade não é o que pensamos dela, senão que inclui tudo e não pode ser agarrada por nossa mente limitada. Quando soltamos, simplesmente fluímos na iluminação que é inerente à realidade: ela mesma.

Isso é ir mais longe que a iluminação, mais longe, abandonando todos os enganos. À medida que compreendemos que tudo muda, podemos tomar decisões no momento, sem pensar que o que funcionou uma vez funcionará sempre.

Esta é a origem das ideias fundamentalistas, e nossa prática consiste em fluir momento a momento com as circunstâncias, entendendo que cada momento é  único.

Nós temos muitos problemas no nosso mundo e temos problemas agora mesmo. Pessoas que se dizem “eu sou de direita” ou “eu sou de esquerda”, ambos estão enganados. A realidade está mudando a todo momento.

Há boas ideias em qualquer lado e há grandes enganos em todos os lados. Quando você diz “eu sou, deste lado ou daquele lado”, você colocou algemas em sua própria mente, acorrentou-se a uma ideia qualquer, e isso vai dificultar a sua clareza, a sua visão da realidade última. Não existe nenhuma tese, nenhuma teoria que possa ser dita: ela está toda certa, não existe nada errado aqui, não existem fundamentalismos ou extremismos.

Todos, absolutamente todos os extremismos, estão enganados por natureza. Porque, cada vez que nos aferramos a uma ideia qualquer, de qualquer tipo, ela impede a nossa visão clara de todas as outras coisas. Nisso os praticantes têm que prestar bastante atenção. 

Mesmo com os mestres isso sucede. Alguém vem e diz assim: ele é desse lado, ele é daquele lado. Porque quer colocar, quer classificar o professor em um determinado espectro ideológico.

Isso é claro engano, absurdo, sem sentido. Porque, justamente por sermos budistas, temos que dizer que não estamos amarrados a nenhuma ideia e que estamos prontos a mudar de ideia a todo instante, e que as condições mudam e, portanto, nada pode ser declarado como certo, como verdade absoluta.

Ainda que, em algum momento, pareça que situações similares ao passado nos digam o que seja verdade, nós vivemos cada momento pela primeira e única vez.

Então, entendendo as circunstâncias, cada momento é único e cada momento precisa de sua própria interpretação com clareza. Esse verdadeiro ser, que Uchiyama Roshi disse que, aparece quando abandonamos os nossos pensamentos, é a realidade da vida que se manifesta no presente, com tudo o que surge e desaparece a cada instante, o fluxo incessante da própria vida.

 

Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Roshi, Daissen Virtual – Colaboradores, 18/10/2025.