Nós vamos prosseguir hoje com os comentários sobre o livro Introdução ao Zen de Dōgen, que será lançado em 2026 pela editora da Daissen e é de autoria do mestre Denshō Quintero Daiōshō, mestre da Colômbia, com quem fiz ango no monastério de Yokoji, na Califórnia.
“A prática é um processo”, diz o mestre Denshō, “é um processo sem intenção diferente da própria prática. Em outras palavras, o despertar não é algo que se busque através do zazen. No zazen praticamos Buda sentado. Sentamo-nos em shikantaza para manifestar a natureza iluminada da realidade.”
Vale realmente comentar esse trecho.
Nós fazemos zazen para treinar nossa mente altamente perturbada, e nós fazemos muitas coisas para provocar essa perturbação. Por exemplo, assistimos a espetáculos ou filmes permeados de grande violência, o que perturba a nossa mente. Lemos coisas e/ou ouvimos conversas cheias de referências baixas ou mesmo opiniões maldosas a respeito do mundo. A nossa prática tem que estar isenta disso; a nossa mente tem que estar limpa para que a iluminação seja possível e livre de todos os pensamentos discriminativos.
Ela deve estar limpa de qualquer preconceito a respeito dos outros, das inclinações dos outros, das orientações sexuais dos outros, por exemplo. Questões como “esta pessoa é homem, aquela é mulher” manifestam a nossa discriminação. O próprio Dōgen, já no século XIII, escreveu textos dizendo que aqueles que imaginam alguma inferioridade das mulheres, por exemplo, não passam de mentes arrogantes, perturbadas e ignorantes.
Essas afirmações dos mestres do passado são difíceis de serem incorporadas porque a nossa prática cotidiana está cheia de discriminações de todo tipo. Vemos dirigentes de países dizerem que os imigrantes vão “sujar o nosso sangue”, por exemplo. Esse tipo de afirmação perturba a nossa mente porque manifesta justamente algo que é o contrário da realidade última. Na realidade última, não existem distinções.
Então, nós sentamos em zazen. Isso não significa que sentamos em zazen por já sermos iluminados, mas sentamos em zazen para treinar a nossa mente, para que ela seja capaz de ver a realidade última. Enquanto ela estiver perturbada, é como se usássemos óculos sujos, que não permitem enxergar claramente.
No zazen, praticamos a própria atitude do Buda: ser como Buda, estar sentado como Buda. E isso permite que nos aproximemos da condição de um Buda. As considerações a esse respeito expressam que toda a nossa prática tem que estar isenta do pensamento discriminativo de qualquer espécie. O pensamento discriminativo é uma perturbação e uma visão distorcida da realidade última.
Por isso, sentamos em zazen e não cogitamos nada; não pensamos nem seguimos pensamentos, porque os nossos pensamentos são como perturbações na superfície de um lago. Um lago cheio de ondas e agitações não reflete o céu. Para que ele consiga refletir o céu com clareza, precisa estar isento de perturbações.
Sentamos em zazen para limpar a nossa mente, para acalmar a nossa mente, para fazer com que os nossos “óculos” fiquem límpidos, para que a realidade última possa ser vista. Isso é uma condição sine qua non; sem ela, o despertar, a iluminação, não acontece. Não acontece enquanto não limparmos a nossa mente do pensamento discriminativo, de qualquer consideração a respeito de diferenças, superioridades ou inferioridades, seja de quem for.(…) Continua.
Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Roshi, Daissen Virtual – Colaboradores, 18/10/2025.
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