#14 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô.

#14 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô.

Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 15 de novembro de 2025. A palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção foram realizadas com auxílio de I.A., por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.

Continuando.

Todos são traidores, todas as pessoas são falsas, todos isso, todos aquilo, desconfiamos de tudo. Esse é um tipo de mente. Outro tipo de mente é, não, todas as pessoas têm coisas boas dentro de si, eu estou vendo bem dentro das pessoas, as possibilidades de bem dentro delas.

Eu quero ver isso. É outro tipo de mente. De acordo com a mente que você constrói, ao mesmo tempo você constrói um mundo em volta.

E aquele mundo tem o aspecto de justiça, de injustiça, de esperança, de desesperança, de tragédia, o que você quiser ver, porque todos esses aspectos existem simultaneamente, estão disponíveis. Você os sintoniza, você os escolhe. E essa palavra é bem interessante, você os sintoniza.

Assim como você, quando pega seu celular, sintoniza um determinado canal, uma determinada pessoa, uma determinada mensagem, assim também na vida você sintoniza alguns aspectos, uma fração da vida. E você a escolhe como uma fração que você quer ver. Se nós nos dermos conta disso, nós vamos ver que o mundo que estamos vendo é uma escolha.

Porque é a escolha que você faz quando sintoniza aquele mundo e aquele aspecto. Vocês estão aqui agora ouvindo uma palestra sobre o Dharma, com todas essas considerações. É uma escolha.

Existem outras coisas muito diferentes que você poderia estar sintonizando. Você escolheu esta. Isso já diz muito sobre você.

Quando você escolheu esta, tem alguma coisa em você que faz com que você queira ouvir isto, e não outra coisa. Então, apesar de sermos indivíduos vivendo na realidade total, nós vemos a nós mesmos como sujeitos e vemos as coisas externas como objetos. Continuamente julgamos, escolhemos, de acordo com nossas preferências e as condições de nosso entorno.

Como indivíduos, vemos as coisas como boas ou más, e escolhemos o bom e evitamos o mal. Para isso, criamos um mapa da realidade, para guiar nossa mente. Apesar de que continuamos vivendo dentro da realidade absoluta, além do pensamento.

Nossos pensamentos sobre a realidade são mapas, e não realidade. Nós construímos um mapa, uma representação da realidade que vemos, e a tomamos como a realidade. Há até um conto que essa passagem me lembrou, em um dos textos de Jorge Luís Borges, em que ele imagina um país e um governante que, fascinado com os mapas, ordena que se faça um mapa perfeito.

Quando olhamos um mapa, normalmente ele tem, você vê lá um número, um por cinquenta mil. Quer dizer que, a cada cinquenta mil metros, você tem um metro de mapa. Então ele é um resumo, uma parte muito pequena da representação da realidade.

E o governante, fascinado com os mapas, ordena que se faça um mapa perfeito. Esse mapa perfeito tem que mostrar cada árvore, cada folha de grama, cada pessoa, cada casa, cada detalhe. Então, esse mapa seria um mapa um por um.

Cada metro estaria representado com um metro de mapa. Então o mapa cobriria todo o território. Esse delírio está no livro Ficções, de Jorge Luís Borges.

Mas o linguista polaco Alfred Korzybski, para referir-se à diferença que há entre a realidade e a representação mental, que fazemos desta, diz que o mapa não é o território. Porque o mapa é um resumo, é uma escolha. Uma escolha do que representar.

E é isso que você faz na sua vida. Você escolhe algo para representar e aquilo torna-se a sua realidade. Por isso não concordamos sobre a realidade uns com os outros.

Nós sentamos e uma pessoa diz uma coisa sobre a realidade e outra diz outra. Aí discordamos da interpretação da realidade. Por isso desenvolvemos ideologias que fazem interpretações sobre o que é a realidade.

Mas as ideologias são todas falsas, porque elas escolhem apenas um aspecto e uma determinada maneira de ver. E depois as pessoas brigam e discutem entre si por causa dessa maneira de ver. Ou tentam colocar, por exemplo, o mestre em um determinado escaninho ideológico.

Uma vez eu saí de uma palestra em que estava falando, provavelmente, sobre justiça e equidade, igualdade. E um homem foi até mim, quando eu desci do palco, colocou o dedo em direção ao meu rosto e disse: o senhor é um esquerdista.

Eu não tinha como contestar aquela afirmação. Mas depois recebi outras acusações, o senhor é fascista ou direitista ou qualquer coisa desse tipo.

Todas essas afirmações são absolutamente erradas, porque elas tentam colocar uma pessoa dentro de um determinado escaninho, dentro de uma determinada prateleira. Que é a maneira que as pessoas tentam entender o mundo. Classificar e colocar em escaninhos o que você está vendo.

É por isso que nós temos dificuldades. Eu fui em uma reunião ecumênica de congraçamento de diferentes religiões. E, automaticamente, todos entendem que você representa uma determinada religião.

Estava um praticante sentado na plateia, eu no palco, a representar o budismo. E ela me perguntou, era uma jovem, ainda adolescente, me perguntou: mas monge, o budismo é uma religião? Tentei explicar, nós estamos aqui, estamos classificados entre religiões, como uma religião. Eles querem nos colocar neste escaninho. Continua.

 

Palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual.