Pergunta: A vacuidade é um lugar para onde retornamos pós morte, que se harmoniza com o karma?
Genshō Rōshi: Bom, em primeiro lugar, essa vacuidade não é um lugar para onde retornamos. Nós já somos a própria vacuidade se manifestando, não é? Mas a vacuidade não é algo, tampouco um lugar. Nós e a vacuidade somos uma coisa só.
Vacuidade quer dizer que não há nenhum eu, particular, em coisa alguma; todas as coisas estão juntas. É sobre isso que estamos falando o tempo todo. Então, não se trata de um retorno para algo. Em relação à pergunta sobre como ela se encontra e se harmoniza com o karma, o karma é a lei de causa e efeito. É apenas uma verdadeira lei natural. As coisas ocorrem dessa forma porque a ação tem repercussão, tem consequência. Então, vacuidade não se harmoniza com o karma; vacuidade são todas as coisas juntas, esse vazio universal é o absoluto.
O absoluto é constituído pelos relativos. No mundo relativo, o karma existe. Porque há ação, há consequências. Mas no mundo absoluto, todas as coisas se unificam. Então, todas as ações e consequências estão juntas. É mais ou menos como dizermos que o karma pertence aos acontecimentos do que é relativo.
Muito obrigado por assistirem à palestra de hoje. Espero que não estejamos tornando tudo muito complexo. O Budismo é isso mesmo, ele não é tão simples assim.
Não é nenhum “toma lá, dá cá” ou “faça uma coisa e receba uma bênção”. Não se trata disso. Não há nenhum comércio que seja o Dharma em si. Os aspectos de termos que colaborar para existir palestras, para existir sanghas, lugares onde nos reunimos, isso pertence ao mundo relativo. Nós não podemos dizer que ele não existe. Ele existe. Mas, ao mesmo tempo, ele todo se unifica no absoluto, como o exemplo que eu dei da árvore. Todos os átomos que estão dentro da árvore, que estão nas suas raízes, nas suas folhas, nos seus frutos, são muito antigos, muito, muito antigos. Eles retornam a bilhões de anos. Estão só em fluxo, em movimento. Naquele momento, há a árvore, naquele momento há o fruto, naquele momento nós vamos lá e tomamos um fruto e comemos.
Nós participamos desse imenso movimento, desse imenso fluxo que ocorre no absoluto, que é idêntico a ele. Mas nossas vidas, nossas identidades, nossas pequenas existências, nossos atos ao comer um fruto, são atos do mundo relativo. O que precisamos entender é que relativo e absoluto são idênticos. E, se compreendermos isso, a árvore sempre estará lá. Ela não nasce nem morre. Em um momento do tempo, ela existiu e existiu fruto. Mas, em um tempo unificado absoluto, não existe um transcorrer, não existe passado nem futuro. Existe um presente em que passado e futuro estão contidos. É sobre isso que Dōgen Zenji fala.
Então, para nós, na verdade, só existe morte e nascimento no mundo relativo. No mundo absoluto, esses são apenas eventos temporais. E o tempo não é, de maneira alguma, aquilo que nós pensamos que é. Ele parece que transcorre; ou seja, o tempo e o transcorrer do tempo não são mais do que uma ilusão persistente.
Palestra proferida por Genshō Sensei em teishō na Daissen Virtual no dia 31 de agosto de 2024.