#5 Introdução ao Zen de Dogen – Comentários | Monge Genshô

#5 Introdução ao Zen de Dogen – Comentários | Monge Genshô

Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 01 de novembro de 2025. A palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção foram realizadas com auxílio de I.A., por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.

Continuando.

Então, agora entramos propriamente no texto de Dogen. É o primeiro capítulo do Shobogenzo, na versão de 75 capítulos. O projeto dele era fazer 100, e não chegou a terminar. Mas o primeiro capítulo chama-se Genkoku.

E é considerado por muitos acadêmicos como a essência mesmo dos ensinamentos do grande mestre Dogen. Mestre Boku san diz: este fascículo é o mais difícil de todo o Shobogenzo.

É a pele, os ossos, a medula de Dogen. O Budadharma, os ensinamentos de Buda de toda a sua vida, revela-se nesta obra. 

Uma observação interessante que eu gostaria de fazer a respeito de um homem como Dogen é o fato de que esses nossos grandes ancestrais, aqueles a quem nós nos referimos, são homens de instituição.

São homens que construíram monastérios, templos, reuniram discípulos, organizaram, esforçaram-se em escrever e ensinar e agiram como homens que estavam montando uma instituição. Isto, na realidade, repete-se desde o tempo de Shakyamuni Buda. Shakyamuni Buda era um homem de instituição.

Ele nomeou seus discípulos, criou a hierarquia, criou um sistema de vestes. Esses mantos que vestimos hoje são herdeiros da iniciativa de Shakyamuni Buda. Ele os definiu e criou um sistema monástico, criou rituais para ordenação e, ao fazer todas essas coisas, manifestou o desejo de organizar a sanga de modo que os ensinamentos fossem preservados e difundidos.

Muitas vezes nós somos críticos quanto a instituições, e as instituições são realmente cheias de problemas. Por quê? Porque elas são feitas de homens. E, como são feitas de homens, têm problemas humanos.

Todos os problemas humanos aparecem nas instituições. Os erros humanos, os atritos humanos, as vaidades humanas, os desejos de proeminência, os desejos de autoridade ou de poder surgem quando se criam as instituições. Mas, ao mesmo tempo, sem as instituições, os textos não são preservados, o ensinamento não é preservado, não existe a possibilidade de transmitir.

Temos monges brilhantes, como lembro bem no exemplo de Kodo Sawaki. Kodo Sawaki era muito pobre, não pertencia a nenhuma linhagem — linhagem, vamos dizer, genética. Ele não era herdeiro de um templo. Tinha linhagem do Dharma do seu mestre, do mestre que o adotou em Eiheiji.

Então ele ficou conhecido como o mestre sem templo, que viajava de um lugar para o outro, estava distante da instituição em si. Mas o que acontece no final da sua vida é que ele é convidado a ensinar na Universidade Kumazawa.

Eu estive na Universidade Kumazawa dois meses atrás, em Tóquio, e visitei o seu museu.

No museu há homenagem a Kodo Sawaki como professor que se tornou da instituição de Kumazawa. Então a instituição fez uma estátua para ele que está no museu: Kodo Sawaki sentado em zazen. Uma estátua muito bonita, muito séria.

Então é a instituição que protegeu o ensinamento de Kodo Sawaki, que o acolheu, lhe deu, no fim da vida, o trabalho de professor e lhe permitiu, então, influenciar com seu ensinamento muitos monges.

E isso mostra essa dicotomia entre o fato de querermos escapar dos problemas das instituições e, ao mesmo tempo, precisarmos das instituições para que suportem os nossos corpos físicos e conservem nossos ensinamentos.

E aí, no caso de Kodo Sawaki, até a sua imagem física, através da estátua que está no museu da Universidade de Kumazawa, universidade patrocinada pela nossa escola, Soto Shu.

O Budadharma, como eu estava dizendo, o ensinamento do Buda, de Dogen, revela-se nessa obra. Nos outros capítulos do Shobogenzo, são como se fossem continuações, ramificações desse texto que nós vamos começar a estudar hoje.

O título, Genjo Koan, tem uma análise algo complexa, porque Genjo significa manifestar, ou aparecer, chegar a ser. Como substantivo, refere-se à realidade tal como é, sucedendo neste presente momento.

Em português, temos uma palavra para isso. A palavra cunhada em português é talidade.

Continua.