#10 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô

#10 Introdução ao Zen de Dogen - Comentários | Monge Genshô

Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Rôshi aos colaboradores da Daissen Virtual, em 08 de novembro de 2025. A palestra foi gravada, e sua transcrição, edição e correção foram realizadas com auxílio de I.A., por praticantes e alunos de Genshô Rôshi.

Continua…

Dirigir-se, disse Dogen, até todas as coisas para levar a cabo a prática da iluminação é ilusão.

Todas as coisas vindo e levando a cabo a prática da iluminação, através de si mesmo, é a realização.

Devemos revisar com frequência nossas motivações para praticar. O que buscamos na prática? No zazen, simplesmente estamos sentados, junto com a totalidade da realidade. Não perseguimos nada, não rechaçamos nada.

Na nossa prática, se buscarmos algum objetivo, nos separamos da realização, porque seguimos obedecendo às tendências do ego de buscar gratificação. Quando nós buscamos algo, perseguimos uma iluminação separada do samsara. Realização é a manifestação da realidade última, que inclui e transcende os opostos.

No Genjōkōan: os opostos unidos são a realidade. Se você olha uma coisa e descarta as outras, você perdeu a realidade. Você escolheu um lado e, ao escolher um lado, perdeu a totalidade e, assim, perdeu a realidade também.

É isso que acontece com o que eu me referia antes, com as posições ideológicas ou políticas. Quando se agarra um lado, rechaça-se o outro de tal forma que não se compreende mais o outro e também não se compreendem mais as outras pessoas. E, por isso, então, nos isolamos em ilhas, em bolhas de autoconfirmação, de viés de confirmação. As coisas são assim ou assado. Tal pessoa é boa, tal pessoa é ruim.

Quem é realmente bom? Quem é realmente ruim? Todos nós somos uma mistura.

“Aqueles que compreendem profusamente a ilusão são budas”, diz Dogen. E aqueles que estão extensamente enganados na compreensão são seres vivos.

A realidade da vida está além da separação entre engano e iluminação. Como realidade da vida, estamos vivendo antes de discriminar entre iluminação e engano.

Devido a que tudo está em contínua transformação, não estamos fixos como seres enganados, nem estamos fixos como budas iluminados. Em realidade, despertar para a realidade da vida antes da separação entre iluminação e engano é Buda.

E isto é algo que se manifesta no momento em que soltamos a identidade com nossos processos mentais.

Porque, para nós, viver significa julgar constantemente. Portanto, sempre estamos vivendo em meio a enganos, baseados na discriminação entre uma coisa e outra.

Alguém me disse que está errado julgar. Quando estamos sentados em zazen, não é para exercitarmos nossa mente julgadora, que escolhe entre certo e errado, bom e ruim. No entanto, viver significa julgar constantemente.

Você precisa julgar: essa pessoa está certa ou está errada? Esses amigos são bons ou ruins? Com quem eu devo me juntar e de quem devo me afastar? Tudo isso são julgamentos que precisamos fazer. E viver é isso: julgar constantemente. Você não viveria sem julgar.

No entanto, é essa mesma mente que julga, que decide bom ou ruim, certo ou errado, que não é a visão iluminada. A visão iluminada tenta ver, em todas as coisas e pessoas, todos os lados, e elege o melhor lado. Até porque eleger o melhor lado é uma maneira de mudar o mundo.

Eu gosto de uma citação de Lincoln, em que ele diz: “Trate um homem como ele deve e pode ser, e ele será aquilo que ele deve e pode ser.” Pelo menos você deu a ele a chance de escolher o seu melhor lado. Todos terão seus piores lados.

Se nós olharmos o pior lado e elegermos esse para olhar, nós bloqueamos a possibilidade de a pessoa que está agindo mal agir bem. Então, ao olhar e eleger o melhor lado, nós damos uma chance de mudança.

Há muitas histórias a esse respeito. Talvez uma das mais conhecidas seja Os Miseráveis, de Victor Hugo.

Jean Valjean rouba um padre, rouba suas pratarias. A polícia vem, o pega e o traz. E o padre diz: “Não, ele não roubou. Eu dei, eu dei a ele.”

E, quando a polícia vai embora, ele diz para Jean Valjean — estou resumindo bastante a história —: “Com esta prata eu compro a tua alma. Eu te dou a chance de mudar, de deixar de ser um ladrão.”

E Jean Valjean torna-se o herói de Os Miseráveis, ao ser um homem completamente diferente daí em diante.

Por que o padre se recusou a ver o ladrão?

Também há histórias assim de Ryōkan, mestre budista, de quem um ladrão rouba o manto, e ele diz: “Não, ele não roubou, eu lhe dei.”

A polícia solta o ladrão e, dias depois, ele volta e se prostra à frente do mestre Ryōkan, pedindo a ele que seja seu mestre.

As duas histórias são moralmente idênticas.

A visão dos mestres, do padre, que faz o papel de um mestre ali, é olhar o melhor e dar chance ao melhor para que ele floresça.

Então, nessa escolha, nós temos uma chance de mudar o mundo. Pode ser que nós não consigamos, mas demos a oportunidade.

De fato, enquanto estivermos vivos, não haverá um momento em que a ilusão seja eliminada por completo. Continua.