Os primeiros Patriarcas | Monge Genshô

Os primeiros Patriarcas | Monge Genshô

Vamos falar um pouco sobre o que é o zen. O zen é a doutrina do coração de Buddha. Dizem que ele surgiu no sermão da flor que ocorreu quando Shakyamuni Buddha foi dar uma palestra e levantou uma flor. Kasyapa, que era um dos discípulos de Buddha e conhecido como o melhor em ascetismo entre eles, havia feito o voto de não se deitar e por isso dormia sentado em meditação, tendo inclusive sido repreendido por Buddha uma vez pelo exagero e a resposta de Kasyapa foi “mas eu não tenho tempo”. Então, Kasyapa era um praticante muito sério e durante o sermão onde Buddha levantou a flor e não disse nenhuma palavra Kasyapa sorriu. Buddha então disse “Kasyapa foi o único que entendeu”. A partir daí Kasyapa passou a ser chamado de Mahakasyapa (de Maha “grande”) e quando Buddha morreu ele foi eleito seu sucessor pela assembleia monástica, se tornando o primeiro patriarca. Quando nós fazemos a recitação com os nomes dos patriarcas o nome do primeiro sucessor que dizemos é Makakasho que é a pronúncia de seu nome em japonês.

Mahakasyapa então sucedeu Buddha presidindo a ordem até a sua morte. Ele foi depois sucedido por Ananda, que era primo de Buddha e foi seu secretário durante 40 anos. Acontece que Ananda era um homem muito bonito e apreciava muito as mulheres. Há uma história de um sermão de Buddha onde ele sente falta da presença de Ananda, que memorizava seus discursos e tinha uma memória fabulosa, por conta disso muitos Sutras começam com a frase “assim eu ouvi”, porque é Ananda contando de memória o que ele ouviu de Shakyamuni Buddha. Buddha sente falta dele numa ocasião e pergunta então “onde está Ananda?” e a resposta é que ele está em uma aldeia com algumas moças e Buddha pede para chamá-lo. Quando volta para fazer sua função de secretário Ananda chega com as mulheres. Então, Ananda com essa sua personalidade carismática e essa sua beleza é perturbado por esses fatores e quando Buddha morre Ananda ainda não despertou, mesmo depois de ter passado 40 anos ao lado de Buddha, ele continuava mergulhado em ilusões. Antes do concílio os monges se reúnem, os arhats, aqueles que já haviam despertado, e dão um ultimato a Ananda: para que você esteja no concílio como um dos despertos você tem que despertar. E dão uma semana de prazo para ele. Ele consegue então despertar e participa do primeiro concílio. Depois que Makakasho morre Ananda se torna seu sucessor e ele é o nosso segundo patriarca.

Logo depois dele vem Shonawashu que uma vez estava junto de Ananda e perguntou: “mestre, qual é a verdadeira natureza de todas as coisas?” e Ananda mostra a ele seu kesa, seu manto. O manto é feito de retalhos e quando Shonawashu viu entendeu que as coisas estão todas ligadas umas nas outras, estão todas numa cadeia de interconexão que no fim acaba em um ciclo. Não procuramos um deus criador e compreendemos que as coisas estão interconectadas e são interdependentes umas das outras, esse é um dos significados do kesa. Apesar de ter entendido isso, Shonawashu olha para Ananda e diz “mas qual é a natureza última de todas as coisas?” e então Ananda arranca o kesa de Shonawashu. Naquela época os monges na Índia não usavam roupas por debaixo do kesa, essas roupas que usamos agora foram acréscimos posteriores feitos nos países frios e então quando Ananda puxou o manto Shonawashu ficou nu. Neste instante ele entendeu que todas as coisas são vazias de um eu inerente e que a verdadeira natureza última de todas as coisas é a vacuidade. Neste momento Shonawashu desperta e se torna o terceiro patriarca.

Não vou contar a história dos 95, mas as 57 primeiras histórias de transmissão da luz dos despertares dos patriarcas estão contidas num livro chamado Denkōroku.

A essência do que estamos falando é que nós praticamos com uma ideia: nos livrarmos das ilusões e despertarmos. Por isso praticamos, para ver o que Shonawashu viu. Primeiro que todas as coisas são interconectadas e são interdependentes e, mais além, que todas as coisas são vazias de um eu inerente. Cada um de nós é vazio de um eu inerente, somos nada mais que uma parte do tecido do universo, somos nós que refletimos todos os outros, interconectados formando uma grande rede que às vezes é chamada de rede de Indra e que cada nó desta rede tem uma joia que reflete todas as outras.

Se nós sentarmos em zazen e virmos que somos um reflexo de todas as coisas, que pertencemos a uma grande rede e que não existe algo que nós possamos dizer ser um eu particular, se entendermos que nós somos a própria rede, se nós virmos isto então teremos visto a primeira parte da visão de Shonawashu. E se nós virmos que todas as coisas não têm mais do que uma existência conjunta, vazia de um eu separado e independente então teremos visto a segunda parte. Todas as coisas são vazias. Esse pode ser um grande despertar.

Texto da palestra proferida por Meihô Genshô Sensei – Goiânia, 26/02/2020.